Primeiros parágrafos
Registro minhas leituras no Goodreads e no meu próprio arquivo aqui no blog. Dessa prática surgiu a vontade de guardar também o começo de cada livro. Esta página reúne os primeiros parágrafos dos livros que li, fragmentos de leituras acumuladas ao longo do tempo.
Algoritmos de destruição em massa
Cathy O'Neil
Quando eu era uma garotinha, costumava fitar o tráfego pela janela do carro e analisar os números das placas. Eu reduzia cada um a seus elementos básicos - os números primos que os compunham. 45 = 3 x 3 x 5. Isso é chamado fatoração, e era meu passatempo investigativo favorito. Como uma promissora jovem nerd de matemática, eu ficava especialmente intrigada pelos números primos.
M, o filho do século
Antônio Scurati
Aproximamo-nos da Piazza San Sepolcro. Cerca de cem pessoas, todos homens sem importância alguma. Somos poucos e estamos mortos.
O adversário
Emmanuel Carrère
Na manhã de 9 de janeiro de 1993, um sábado, enquanto Jean-Claude Romand matava sua esposa e seus filhos, eu participava com minha família de uma reunião pedagógica na escola de Gabriel, nosso filho mais velho. Ele tinha cinco anos, a idade de Antoine Romand. Em seguida, fomos almoçar na casa dos meus pais, e Romand, na casa dos pais dele, a quem matou depois da refeição. Passei sozinho, no meu escritório, a tarde de sábado e o domingo, dias normalmente dedicados à convivência, porque estava para concluir um livro em que vinha trabalhando havia um ano: a biografia do romancista de ficção científica Philip K. Dick. O último capítulo contava os dias que ele passou em coma antes de morrer. Terminei na noite de terça, e na quarta-feira de manhã li o primeiro artigo do Libération dedicado ao caso Romand.
O que é meu
José Henrique Bortoluci
Lembra que esse aeroporto o pai ajudou a construir pra você poder voar. Ouço essa frase do meu pai sempre que tenho de pegar algum voo no aeroporto de Guarulhos. E eu sempre me lembro, mas demorei para aprender. O pai caminhoneiro visita a casa, a esposa e os filhos. Ele chega, mas logo se vai. Chegavam ele e o caminhão, um par, quase uma coisa só, entidade que sobrava e faltava, impositiva e passageira. Eu, menino, queria que eles ficassem, queria que se fossem, queria ir junto deles.
Sociobiografia: entrevista a Geoffroy Huard
Didier Eribon
Quando propus a Didier Eribon organizar um livro de entrevistas suas, ele topou imediatamente. Após trocar algumas ideias sobre o projeto e sobre a estrutura que eu gostaria de dar ao livro, logo começamos a trabalhar. Nos encontramos uma vez por semana, em sua casa, decididos a respeitar, na medida do possível, esse ritmo que havíamos combinado de início - que, no entanto, foi frequentemente interrompido por nossas respectivas viagens ou por outros projetos de escrita. Para levá-lo a bom termo, reli toda a obra de Eribon, desde seus primeiros trabalhos sobre história intelectual, seus livros de entrevistas com Georges Dumézil e Claude Lévi-Strauss, sua biografia de Michel Foucault e seus livros sobre a história e a sociologia da homossexualidade, passando por aqueles relativos à autoanálise, às classes sociais, à teoria política e, mais recentemente, aqueles dedicados à velhice, à perda da autonomia física, mas também cultural e política, das pessoas idosas, e ao papel dos porta-vozes. Também li alguns de seus artigos publicados na imprensa francesa quando ele era crítico literário na década de 1980. É sobre sua <
> à chegada em Paris, vindo de Reims, que se abre este livro, no qual se retraça a sua trajetória de trânsfuga com interesse pelo processo de construção singular de um intelectual gay na França dos anos 1970 até o primeiro quarto do século XXI.
Casei com um comunista
Philip Roth
O irmão mais velho de Ira Ringold, Murray, foi meu primeiro professor de inglês na escola secundária e foi por intermédio dele que fiquei amigo de Ira. Em 1946, Murray acabara de voltar do exército, onde servira na décima sétima Divisão Aerotransportada, na batalha de Bulge; em março de 1945, dera o famoso pulo para o outro lado do rio Reno, que assinalou o começo do fim da guerra na Europa. Ele era, naquele tempo, um cara atrevido, desaforado, careca, não tão alto quanto Ira, mas esguio e atlético, que pairava acima de nossas cabeças num estado de vigilância perpétua. Era completamente natural em suas maneiras e atitudes, ao passo que na fala se mostrava verbalmente copioso e intelectualmente quase ameaçador. Sua paixão era explicar, esclarecer, fazer-nos compreender, e o resultado era que desmontava cada novo assunto de nossas conversas em seus componentes principais da mesma forma meticulosa como analisava frases no quadro-negro. Tinha um talento especial para dramatizar o interrogatório, lançar um poderoso feitiço narrativo mesmo quando era estritamente analítico e esmiuçar em voz alta, no seu jeito lúcido, aquilo que líamos e escrevíamos.
Desvarios no Brooklyn
Paul Auster
Eu procurava um lugar sossegado para morrer. Um dia alguém me recomendou o Brooklyn, e já na manhã seguinte saí de Westchester e fui sondar o terreno. Fazia cinqüenta e seis anos que eu não punha os pés ali e não me lembrava de nada. Eu tinha três anos de idade quando meus pais se mudaram do Brooklyn, mas instintivamente me vi regressando ao ponto de partida, rastejando, como um cachorro ferido, de volta ao lugar onde eu nascera.
Trabalho focado: como ter sucesso em um mundo distraído
Cal Newport
No cantão suíço de St. Gallen, bem próximo do lago de Zurique, ao norte, fica uma aldeia chamada Bollingen. Em 1922, o psiquiatra Carl Jung escolheu esse lugar para construir um retiro. Ele começou com uma casa de pedra simples de dois andares que chamou de Torre. Depois de retornar de uma viagem à Índia, onde observou o costume de acrescentar salas de meditação às casas, expandiu o complexo para incluir um escritório particular. “Na minha sala de descanso, fico acompanhado de mim mesmo”, disse Jung sobre o espaço. “A chave está sempre comigo; ninguém entra lá sem minha permissão.”
Intermezzo
Sally Rooney
Não parecia justo com o rapaz. Aquele terno no velório. Com o aparelho nos dentes, o incômodo supremo do adolescente. Nessas ocasiões, era possível até se lamentar por sua habilidade social. Servia de desculpa, ou pelo menos lhe proporcionava alguém que ele pudesse encarar com um olhar de súplica entre os apertos de mão obrigatórios. Deus o abençoe. Estava com quase vinte e três: Ivan, o Terrível. Na verdade, era difícil acreditar no terno que vestia. Talvez tenha sido comprado em uma lojinha bolorenta de roupas usadas para ajudar o asilo da cidade, pago em dinheiro, levado para casa de bicicleta, em uma sacola plástica reutilizável amassada. Sim, faria sentido, combinaria o terno em sua feiura resplandecente com a personalidade de irmão caçula, dez anos mais novo. Não desprovido de um estilo à própria maneira. Um tipo de desenvoltura em sua indiferença absoluta pelo mundo material. Cérebro e beleza, uma tia havia falado. A respeito dos dois. Ou seria o cérebro de Ivan e a beleza de Peter. Obrigado, acho eu. Ele atravessa a Watling Street a caminho do apartamento que não é um apartamento, da casa que não é uma casa, onze ou serão doze dias depois do velório, já de volta à cidade. De volta ao trabalho, por pior que seja. Ou de volta à casa de Naomi. E o que ela usará ao abrir a porta. Desliza o telefone do bolso para a palma da mão ao chegar à entrada, a sensação fria da tela quando se ilumina sob seus dedos, digitando. Aqui fora. As tardes estão mais curtas e ela voltou às aulas, em tese. Nenhuma resposta, mas ela visualiza a mensagem, e então a sequência previsível, a sequência tão conhecida e a essa altura indiretamente excitante de sons quando do outro lado da porta ela sobe a escada do porão e entra no corredor. Condicionamento clássico: como levou tanto tempo para entender? Senso comum. Não era isso. Experiência diária. A relação entre memória e sensação. A porta se abrindo.
Onde está tudo aquilo agora: minha vida na política
Fernando Gabeira
No momento em que escrevo, ainda estou vivo. Quero dizer que não esgotei meus papéis históricos. Cinquenta anos de vida pública. Não pretendo concluir, apenas fechar um ciclo. “O passado é um país estrangeiro, fazem coisas estranhas por lá”, escreve L. P. Hartley no romance O mensageiro . Concordo somente com o final: “fazem coisas estranhas por lá”.