Instruso na demografia e a lembrança de uma amizade fortuita

Ontem assisti como intruso à aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Demografia da UFRN. A conferência foi ministrada pela professora Rosana Baeninger (UNICAMP) e o tema foi “Brasil na Geopolítica das migrações internacionais”. Como o número de estudantes migrantes e/ou refugiados nas escolas municipais de Natal tem aumentado nos últimos anos, eu e outras duas colegas assessoras pedagógicas das Ciências Humanas da SME/Natal entendemos que a discussão poderia fundamentar melhor a nossa rede de ensino no acolhimento a essas crianças e adolescentes.

Dentre os pontos abordados pela professora Rosana, chamou minha atenção o fato de o Brasil estar se caracterizando como um país de trânsito para os migrantes estrangeiros. A recente maior rigidez dos Estados Unidos e da maior parte da Europa em fechar as suas fronteiras para a imigração vinda do Sul Global fez do Brasil um país possível para essas populações em deslocamento. Rosana também destacou que contribuiu para isso o fato de o Brasil ter avançado numa legislação que desburocratizou a emissão de vistos que legalizam a estada desses migrantes, garantindo a eles o acesso aos serviços públicos de educação, saúde, bem como ao mercado de trabalho de maneira mais formal.

Entre os demógrafos há a ideia do Brasil não como um país desejado para os migrantes internacionais, mas como um destino possível e temporário, até que as condições nos seus países de origem estejam mais propícias para um retorno, ou que as condições de migração para o Norte Global estejam mais favoráveis.

Para exemplificar esse cenário, Baeninger relatou estudos que apontam que muitos sírios que vieram ao Brasil como refugiados de guerra já retornaram ao seu país. Também enfatizou o caso de haitianos que migraram para cá após o terremoto de 2010 - num fluxo que de certa forma continua até hoje - mas que em sua grande parte enxergam o Brasil como esse refúgio temporário. A professora Rosana destacou que muitos desses migrantes haitianos que passaram pelo Brasil tiveram como destino seguinte o Chile.


24 de janeiro de 2016, dia ensolarado em Santiago. Eu estava na capital chilena havia 6 dias e a programação para aquele domingo seria explorar alguns pontos da cidade com Márcia e Nina até o almoço, e depois rumar ao Estádio Nacional, aonde eu assistiria a um jogo da La U. As garotas seguiriam outra programação.

Estudei as rotas entre o Centro - onde estava hospedado - e o estádio, e optei por me deslocar de ônibus. O Google Maps informava que a parada não era exatamente próxima ao meu destino e que eu precisaria caminhar um pouco até a cancha. Num espanhol improvisado, combinei com o motorista para que me avisasse em que ponto eu deveria descer. Chegada a hora, o condutor sinalizou que a minha estação havia chegado e tentou explicar que caminho eu deveria seguir a pés a partir dali.

Eis que tentando destravar a comunicação entre mim e o motorista, um jovem adulto que vestia uma espécie de paletó escolar e trazia um bag de guitarra nas costas entrou na conversa e por fim disse que desceria no mesmo ponto que eu e me mostraria a rota certa até o Estádio Nacional.

Ele se apresentou como Emmanuel e, de alguma forma, reconheceu a minha brasilidade enquanto eu conversava com o motorista do ônibus e, a despeito de possivelmente ser genuinamente solidário e prestativo, creio que foi a minha nacionalidade que motivou a sua intervenção em prol da minha chegada ao Estádio Nacional. Tão logo descemos do ônibus e após confirmar o meu país de origem, o novo interlocutor e emendou a pergunta:

Você gosta de futebol?

Após o meu “sim”, Emmanuel passou a enumerar uma série de informações sobre o ludopédio brasileiro, passando pela escalação de alguns times da Seleção e indo até os clubes em que jogadores como Kaká e Robinho jogavam. Até para alguém atento e interessado por futebol como eu, o nível de conhecimento que aquele eventual companheiro de caminhada demonstrava era de impressionar. Conversávamos em espanhol e no parco francês que me restava na memória após 14 anos do curso que fiz no então CEFET de Natal.

À medida que nos aproximávamos do Estádio Nacional, foi ficando claro para mim que a estação em que havíamos descido não era tão próxima ao destino de Emmanuel. Aos poucos, também, fomos mudando o assunto da conversa e ele foi revelando informações mais pessoais.

O uniforme que vestia era na verdade a indumentária da banda da igreja que frequentava, o que explicava a guitarra que carregava às costas. Falou, também, que havia chegado ao Chile há pouco mais de 5 anos, como refugiado após a sua cidade natal, Porto-Príncipe, ter sido um dos epicentros do terremoto que devastou o Haiti em 2010.

A maior concentração de torcedores vestindo a camisa azul da La U denunciava que estávamos próximos ao Estádio Nacional. Emmanuel e eu trocamos e-mails, nos despedimos e combinamos de entrar em contato caso algum dia eu voltasse a Santiago ou ele viesse ao Brasil.

Ontem, enquanto eu assistia a conferência mencionada no início deste texto, me lembrava do contato fortuito com aquele amigo haitiano e constatava que, para Emmanuel, certamente o Brasil não seria apenas o espaço de transição ou o destino possível de que falavam os demógrafos que ouvi, mas o destino desejado.

Testemunhando os 8 x 1 da La U com ajuda de Emmanuel

Coisas viram outras coisas

Os caminhos da web aberta têm me levado a ótimas surpresas que recheiam o meu agregador de feeds RSS, e me possibilitam um relação mais deliberada com a Internet nesse mundo curado pelos algoritmos.

Não lembro exatamente como cheguei a Craig Mod, mas certamente foi através dos buracos de minhoca de links compartilhados por outros escritores que acompanho online.

Craig é um escritor e fotógrafo estadunidense aposentado que mora no Japão há mais de 25 anos, costuma fazer longas caminhadas e escrever sobre as suas experiências e encontros pelos lugares que percorre. A sua escrita é arrebatadora e eu espero ansioso a cada semana por um novo texto.

Um das recompensas que vêm ao seguir um projeto como esse por algum tempo é poder ver as obras sendo idealizadas e se concretizando. É o caso de Things Become Other Things: a walking memoir, livro que acabou de chegar para mim e sobre o qual Craig escreveu em seu site desde quando era apenas ideia. A cada semana ou mês pude acompanhar em que estágio de produção a obra estava, passando inclusive pelas provas de impressão e outros pormenores técnicos.

Além das ideias contidas nos escritos, uma das coisas que aprecio no trabalho de Craig Mod foi a solução que ele encontrou para viabilizar o seu objetivo principal: publicar livros. Os textos mais corriqueiros que ele publica, seja nas newsletters ou no seu site são peças autocontidas e suficientemente bem escritas, mas como ele mesmo diz, são na verdade meios para que possa publicar novos livros.

As usual: books — that’s the focus, and will continue to be the focus. Writing the next book, and then the next, as catalyzed / driven / permissionized by the membership program.

Eu não devia botar mais um livro no sarapatéu de leituras não terminadas em que me encontro, mas Things Become Other Things vai furar a fila por aqui. Abaixo segue o primeiro parágrafo do release de divulgação da obra, extraído do site do próprio autor.

Uma caminhada transformadora de 300 milhas ao longo das antigas rotas de peregrinação do Japão e através de aldeias despovoadas inspira uma memória de partir o coração de um amigo perdido há muito tempo, documentada ao lado de fotografias notáveis.

Os moinhos da sua mente

Em 2002 ou 2003, fiquei obcecado por Les Parapluies De Cherbourg, de Michel Legrand. Àquela época eu estudava francês no CEFET-RN. Numa determinada aula, o saudoso professor Antônio trabalhou o filme Os Guarda Chuvas do Amor, de Jacques Demy, e de cuja trilha a canção mencionada faz parte.

Há cerca de um ano atrás, assistindo ao último espódio da 2ª temporada de Ruptura, me vi mais uma vez fortemente ligado a uma canção de Legrand. Trata-se de The Windmills of Your Mind, que foi usada na última cena daquele episódio. Essa música tem me perseguindo desde então e vem cada vez mais crescendo em mim a vontade de fazer algo artístico com ela.

Cheguei, sem sucesso, a sugeri-la para o repertório da Banda Café. Também pensei em criar um arranjo para que entre no show do SeuZé. Mais recentemente, tenho girado em torno da ideia de fazer uma versão em português para a letra e ver o que surge a partir daí. Na pior das hipóteses, vai funcionar como um exercício de composição, já que esta seria a minha primeira empreitada na criação de versões lusófonas para canções em língua estrangeira.

Entre hoje e o dia 09/03 de março estarei de férias e espero trazer novidades sobre esse exercício .

Filmes vistos em 2025

Montagem automática gerada pelo Letterboxd com os pôsteres de todos os filmes que assisti em 2025

Em 2016 passei a registrar os filmes que assisto. Foi quando comecei a utilizar o Letterboxd, uma rede social/plataforma voltada para cinema. Além do fator social, de poder acompanhar o que as pessoas que você segue têm assistido e que impressões têm postado, o Letterboxd tem um sistema de estatísticas fantástico que gera dados a partir das películas que você registra por lá.

2025 foi um ano em que vi pouquíssimos filmes. O meu year in review de 2025 marca 26. Menos de uma película a cada duas semanas.

Seguem abaixo algumas estatísticas geradas pelo Letterboxd para os filmes que assisti ao longo do ano.

Resumo 2025
Distribuição anual e semanal de filmes assistidos
Primeiro e último filmes assistidos em 2025
Filmes assistidos por país
Gêneros, países e idiomas
Diretores mais assistidos em 2025
Atores e artrizes mais assistidos em 2025

Desde 2016 venho reunindo aqui no blog as estatísticas que o Letterboxd gera a cada ano. Veja como foi nos anos anteriores: 2024, 2023, 2022, 2021, 2020, 2019, 2018, 2017, 2016.

Todos esses compilados anuais estão reunidos aqui.

Livros Lidos em 2025

Mantendo a tradição, segue a lista de livros lidos no ano passado:

A Mais Recôndita Memória dos Homens
Mohamed Mbougar Sarr

O Método Bullet Journal
Ryder Carroll

Leite Derramado
Chico Buarque

O Deus das Avencas
Daniel Galera

O Caderno
José Saramago

O Avesso da Pele
Jeferson Tenório

O Lugar
Annie Ernaux

O Fim de Eddy
Édouard Louis

Um Ocidente Sequestrado
Milan Kundera

A Velocidade da Luz
Javier Cercas

Intermezzo
Sally Rooney

Angústia
Graciliano Ramos

História da Violência
Édouard Louis

O Ato Criativo: Uma Forma de Ser
Rick Rubin

A Morte de Ivan Ilitch
Lev Tolstói

A Louca da Casa
Rosa Montero

Igualzinho a Você
Nick Hornby

A Bibliotecária dos Livros Queimados
Brianna Labuskes

Noites Brancas
Fiódor Dostoiévski

O Cupom Falso
Lev Tolstói


Desde 2016 venho listando as minhas leituras anuais. Veja que livros foram lidos por aqui em anos anteriores: 2024, 2023, 2022, 2021, 2020, 2019, 2018, 2017, 2016.

Todos esses compilados anuais estão reunidos aqui.

Mais ouvidas em 2025

Estatísticas geradas pelo [rewind.musicorumapp.com](http://rewind.musicorumapp.com) a partir de dados do [Last.fm](https://last.fm)

Estatísticas geradas pelo rewind.musicorumapp.com a partir de dados do Last.fm

Mais um ano em que continei girando em torno dos mesmos discos e artistas. O destaque foi o Pique, de Dora Morelembaun, que junto das escolhas de Nina, monopolizou o som do carro nos trajetos da família, no dia a dia. Também voltei bastante ao The Best of Chet Baker Sings e ao Another One, de Mac DeMarco. Entre as descobertas do ano está Dr. Dog, cujo Shame, Shame esteve no repeat por algum tempo.

Segue o já tradicional resumo do que ouvi no ano passado:

Colagem com a capa dos 100 discos mais ouvidos em 2025

Desde 2016 venho listando aqui no blog as minhas estatísticas de músicas e discos ouvidos. Os anos anteriores ficaram assim: 2024, 2023, 2022, 2021, 2020, 2019, 2018, 2017, 2016

Todos as estatísticas anuais estão reunidas aqui

29 coisas que fizeram o meu ano (2025)

Inspirado em Austin Kleon, segue a minha versão de algumas coisas que fizeram 2025 valer a pena. A ordem aqui não importa tanto.

  1. Ter participado da organização de mais uma JENAT.
  2. Finalmente conhecendo Galinhos. Fim de semana com a família.
  3. Voltar a Baía Formosa com Márcia, Catinha e Karl e finalmente ter esticado até Sagi.
  4. Ter encontrado uma arte legal de Gustavo Rocha, e ter feito um tatuagem com ele.
  5. Almoços em dias de trabalho no Gaúcho’s Grill. Sobrado preservado no Centro da cidade e ponto de vista inesperado na Rua Princesa Isabel.
  6. Ver Natal receber exposições interessantes como a Armorial 50 anos, que chegou à Pinacoteca Potiguar.
  7. Ter optado, com Marcita, por celebrar o aniversário dela num almoço no irretocável Restaurante En.
  8. Poder ter pego um Nintendo Switch 2 no lançamento num preço acessível. Como tem sido legal jogar o Mario Kart World.
  9. Conhecer a cidade do Porto em família e contando com a curadoria de luxo de Rosinha.
  10. Ter inserido Sevilha na viagem de família. A despeito do calor frequente de mais de 40º, a cidade foi uma grata surpresa. Espero poder voltar no futuro em outra época do ano.
  11. Tomar o ônibus errado na mesma Sevilha, aceitar sem maiores frustrações e ganhar um city tour inesperado que nos levou a lugares que não chegaríamos de outra forma, como às imediações do Estádio Benito Villamarín, do Bétis.
  12. Estar na capital da Andaluzia no dia de Corpus Christi e ter testemunhado a imponência das procissões, bem como o seu impacto no cotidiano da cidade.
  13. Ainda nessa viagem, ter mantido a tradição de sair com Marcita explorando cidades por meio de bicicletas.
  14. Na estada em Lisboa, ter incluído uma visita à Casa dos Bicos - Fundação José Saramago.
  15. O mesmo vale para Sintra e o Palácio Nacional da Pena, que foram recomendados por diversos amigos que estiveram antes em terras lusitanas. Sem dúvidas, um dos pontos altos desta viagem.
  16. Ainda em Lisboa, ter reservado uma tarde para visitar o Museu Bansky. Os adultos e Nina saímos impactados do equipamento.
  17. Ter exagerado no consumo de pastel de belém nesses dias lisboetas. O sabor é incomparável ao dos que temos acesso em Natal.
  18. Ter conseguido conciliar os horários de todos os envolvidos e poder encontrar com João e Sílvio, amigos da pelada, que estão em Portugal já há alguns anos. Ótima noite.
  19. Após muito tempo, ter conseguido me encontrar com amigos da época do Colégio Salesiano. Dessa vez, Sérgio e Adriano. Acredito que não estive com os dois juntos pessoalmente desde os anos 1990.
  20. Mais uma vez fazer o Especial Beatles com a Banda Café. Dias de ansiedade inofensiva.
  21. Banda Café comemorando 20 anos de atividades num show especial no 294, bar que nos acolhe há mais de 10 anos.
  22. Voltar mais rápido do que imaginava ao futebol semanal que jogo toda segunda-feira. Vim convivendo com dores nos joelhos desde o início do segundo semestre do ano. O diagnóstico: condromalácia patelar.
  23. O Pilates, que comecei em setembro, certamente teve um papel importante na recuperação.
  24. Ter descoberto, após um ano e meio de investigação, que as dores abdominais que eu vinha sentindo não eram nada além de disbiose e intestino irritável.
  25. Assistir Agente Secreto no cinema, com Márcia. Junto de Alejandro Zambra, Murakami, Jorge Drexler e Sally Rooney, Kléber Mendonça é um artista que tem me feito ansiar por novos lançamentos seus.
  26. Ter voltado ao Playstation após a cagada da Microsoft na precificação do Gamepass. Há muito tempo eu não me envolvia com um jogo como tem acontecido com Horizon Zero Dawn. O melhor: eu já tinha o game desde a pandemia, quando a Sony deu na faixa.
  27. Fim de semana em João Pessoa com a família. Muito bom ter ido com Márcia, Nina, pais e irmãs prestigiar Malu, a ginasta da família, que participou de uma competição no Ronaldão.
  28. Descobrir as novelas russas de Tolstói e Dostoiévski editadas pela 34. Noites Brancas, A morte de Ivan Ilitch e Cupom Falso, estão entre as melhores leituras que fiz em 25.
  29. Fazer mais uma vez o show de fim de ano do SeuZé na Cervejaria Resistência. Já está virando uma tradição.